Peço desculpas, mas não sei o que escrever. Ando tão despreocupado que a cabeça vai longe enquanto desliza a paisagem ante à janela do ônibus que pego voltando pra casa. Ao menos há algo de interessante para ser visto. De metrô eu fico ainda mais introspecto, casualmente olhando uma ou outra pessoa que se ajunta à essa massa de transeuntes em constante trânsito.
Numa ocasião dessas, estava cansado e recostado no canto do último vagão, não querendo que ninguém ao meu redor existisse, quando, certamente, algum diabrete mais filho da mãe escutou meus pensamentos e, pra dar aquela gastada, fez com que pelas portas que já se fechavam me dando aquele gostinho de ‘consegui! ninguém sentará ao meu lado’, passasse mãe e filha cheio de sacos de compras.
E me perguntei quem era a mãe e quem era a filha. As duas gritavam, davam-se esporro mutuamente. E tudo por quê? Pelo simples fato de uma calça jeans ter servido tanto em uma quanto em outra! Deus do céu… juro a vocês que pensei na hora: que gente pequena, insignificante. Mas rapidamente me corrigi e concluí: não… há algo além, estou me precipitando.
Como o barulho não cessava nem com o Multidecuplexicador & Disruptor Neuroático da Realidade (mp3 player), desisti, respirei fundo, tirei os fones do ouvido e fiquei olhando firmemente para fora, vendo os túneis e luzes que ‘colorem’ o passeio subterrâneo.
E elas lá gritando… sei que até pelo pente estavam brigando. Até que a mãe deu o argumento final: você veio daqui e tá chegando agora, tá tou aqui há mais tempo e sei como tudo funciona.
Para a filha responder-lhe: por isso mesmo… você é mais VELHA, mais FEIA e mais CHATA, ninguém vai te querer assim.
Houve um silêncio chato, daqueles onde o ofendido entorta a cara como se na presença de algo nojento e viscoso, até a réplica seguinte, disparada à queima-roupa mesmo:
- Eu comi teu namorado
Na mesmíssima hora me levantei e fui pra porta. Queria ter a força do Hulk! Eu a abriria na marra, pararia o metrô e com um pulo, rasgaria minha saída dali! Chega!
Tem horas em que não vale a pena mesmo pedir por tranquilidade.